Paranoia

“Eu tenho um medo… Tenho um pavor de morrer na rua. Eu morro de medo de cair morta na rua um dia e ser enterrada como indigente. Imagine só? Imagine se eu estou andando na rua, tenho um AVC e caio morta, ali na calçada, e sou enterrada como indigente! Às vezes eu saio e esqueço a minha carteira de identidade em casa. Ninguém vai me identificar, e eu vou para uma cova rasa, ou para um necrotério e vou ser doada para uma universidade e ser dissecada por estudantes. Ah, que horror! Eu tenho muito medo disso. Estou com uma neurose de não sair mais para ir até a esquina sem a minha identidade, porque se eu morrer na rua eu vou ser enterrada como indigente.”

“Ah meu Deus, que neurótrica! Qual é a probabilidade de você morrer e não ser identificada”

“TODA a probabilidade! Pense só: se eu caio morta na rua, como uma mortadela atirada na sarjeta, eu não vou ser identificada, ninguém estará lá para dizer que sou eu. Esse país é um inferno da desorganização. Vão roubar meus rins e eu vou para um necrotério clandestino, com a sorte que eu tenho.”

“Que exagero!”

“Não é exagero. Eu sinto que isso ainda vai acabar acontecendo comigo… E você? E se você caísse morto na rua e não fosse identificado? Você não tem medo disso?”

“Eu não tenho! Deixa que me enterrem, que me façam de salame, ou o caralho. Nem vou me importar”

“Eu vou me importar. Eu tenho medo de virar indigente. Não quero ir para um cemitério da prefeitura. E isso é um medo real e racional, não estou fóbica ou doentia. Ainda com a vida que eu estou levando, eu não vou durar muito. Qualquer dia eu vou ter uma falência renal ou uma parada respiratória e vou cair morta na rua, feito um frango desossado cru e eu sei que ninguém vai no necrotério me identificar. Só você se importa. Só você identificaria o meu corpo podre. Não identificaria?”

“Claro que identificaria.”

“Não identificaria não, duvido que você fosse me identificar”.

“Porra! É claro que eu identificaria você! Porque é que eu não deveria ir?”

“Não iria! Eu duvido, porque é uma coisa horrível de fazer. Eu vou acabar esquartejada e vendida mesmo”.

“Não vai, sua louca, não vai. É claro que eu vou te identificar no necrotério. Eu prometo.”

Silêncio breve. Ela fez um olhar de desconfiança e começou a falar novamente, com voz chorosa.

“Não vai não. Eu não acredito em você”

“Vou sim. Eu juro que vou.”

“Jura que vai me identificar?”

“Juro!”

“Não sei. Ainda não estou convencida. Esse medo é real e eu acho que vou acabar como uma morta indigente” ela disse limpando uma lágrima que correra em seu rosto.

Ele respirou fundo, aproximou a cadeira e tomou a mão dela. Olhou nos olhos e disse em tom compreensivo:

“Não precisa pensar em bobagens dessa maneira, meu bem. Eu juro, aqui e agora, que se você morrer, eu vou pessoalmente me preocupar que você seja identificada e que seja enterrada em um lugar adequado.”

Ela desfaleceu de comoção.

“Você faria isso por mim?”

“É claro que faria!”

“Oh, obrigado. Você é o meu melhor amigo. Fico feliz que você possa fazer isso por mim.”

Terminada a discussão ela se preocupou com outras coisas e ambos se foram. Passaram os anos e eles, em alguns períodos eram próximos, noutros distantes, e a amizade sempre permaneceu.

Um dia ela andava na rua e, subitamente sentiu uma dor fortíssima no braço e no peito. O pânico se apoderou dela imediatamente — sabia perfeitamente o que estava sentindo: Era um ataque cardíaco. Sua hora chegara!

Dominada pelo pânico e a desolação, mesmo antes de cair e perder os sentidos, um pensamento ainda mais excruciante invadiu sua mente de súbito: Estava sem a carteira de identidade. Não seria identificada.

Imediatamente, porém, lembrou-se do amigo fiel e se aliviou. “Posso ir tranquila”, pensou. “Chegou a minha hora, e meu amigo não deixará que eu seja enterrada como indigente. Ele vai sentir minha falta e vai me procurar. Ele cumprirá sua promessa”

O alívio foi intenso, e ela até sorriu, antes de desacordar e morrer. Na rua, jazia seu corpo morto, feito um presunto atirado na calçada.

Vieram os transeuntes verificar. Veio a polícia e também a ambulância. Ele foi chamado urgentemente ao local. Perguntou-lhe o policial:

“Você conhece esta moça?”

Esta pergunta causou um certo impacto nele Parou e começou a pensar, sem responder. Seu rosto, lentamente mudou a expressão de pavor para surpresa, de surpresa para emoção, e de emoção para indiferença. Sem saber direito porque, respondeu: “Não”.

Seu corpo foi levado, e levado para um necrotério público, como a de uma indigente e depois doado a um Instituto de Morfologia da universidade e dissecado e desmontado em mil pedaços por estudantes de odontologia.


Lobo do Prado, 2016

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