O homem de duas faces

Eu sou um homem de duas faces.

O homem de duas faces

Eu sou um homem de duas faces.

Essas duas faces simplesmente são o que eu quero ser — e ao mesmo tempo tenho de ser. Não só quero ter as duas faces: tenho de ter.

Uma face olha para dentro de mim, para o original que é; outra olha para fora, apenas aparenta para quem vê.

A face virada para dentro quer mas não pode nada. A face que olha para fora pode tudo, mas não quer nada.

Quando eu amo, uma das faces se entrega em puro amor; quando eu odeio a outra esquece que existe o amor. Se uma face odeia ela machuca a outra, mas se a outra ama, ambas sorriem. Eu não queria que nenhuma face odiasse ninguém, mas ao mesmo tempo quero que tudo exploda e que todo mundo morra. Isso é o que eu quero e não posso — ainda bem, porque explodir tudo faz parte daquilo que eu posso, mas não quero.

Quem me ver de fora não me entende por completo — óbvio, só vê uma das faces que tenho, aquela que aparece, pois a outra está oculta. A face oculta esconde muitos, muitos segredos. Mas, na verdade, não importa que tenha tenebroses segredos se aquela que aparece é um livro aberto para quem quiser ler. E não importa que os segredos sejam tenebrosos, já que os dotes que aparecem para o público são lindos e maravilhosos.

O coração por trás de uma das minhas faces sofre muito; e por trás da outra tem um coração que explode de alegria todo dia. Esse da face alegre faz ela sorrir e cantar, e contar poemas, e dançar, e se iluminar. Mas atrás daquela que sofre tem um coração que sente dor, uma que é como se lhe gravassem uma facada a todo instante, e essa face chora porque sangra em agonia, e se deita no escuro sozinha.

Uma das faces minhas entende, outra ignora. Uma tem fé, outra é cética. Uma vive, outra morre. Uma sabe, outra duvida. Uma só lê, outra só escreve.

A face que escreve sabe bem o que diz. A face do que lê não entende nem uma vírgula. A que lê se perde na dúvida, enquanto a que escreve orienta a outra — para que uma entenda, precisa da outra, e a outra dessa uma.

Parece complicado ter duas faces, mesmo que escrever estas linhas seja simples como somar dois e dois.

Parece também que essas duas faces estão destinadas a coexistir para todo sempre, se por acaso não se anularem e se reduzirem ao zero — não sei… Isso é o que parece porque também me parece que nasci assim — com duas faces — e sempre fui e sempre serei assim, mesmo que ter duas faces seja meu fim.

Então, do céu à terra essas minhas duas faces sobem e descem, e descem e sobem me trazendo o que Deus me reservou, mas também o que eu faço em minha vida para mim.

E assim eu sou e vivo, ou não vivo, sempre me perguntando: ter essas duas faces é demais ou o suficiente para mim?


Lobo do Prado, abril de 2026

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