O morno da tarde

“Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente.
Sobre o espaço, sonhadora e bela!”
– Ruth Valadares Corrêa

Aflita e cansada ela se preocupa com o barulho que vem da rua. “São as crianças que andam de skates. Como fazem barulho. Ah eu vou me sentar aqui, ouvir o tango que o Felipe trouxe. Acho que gosto tanto do Bandonéon dessa maneira porque sempre ouvi dizer que o instrumento é uma orquestra inteira. Ah, venha sente, sente aqui do meu lado, vamos ouvir essa música que é de qualidade”.

Era a nora a quem ela chamava. Mal a nora senta ela levanta e vai revirar uma gaveta de miudezas e guardados.

“Olhem aqui, nesta cidade, no Clube Comercial, na apresentção de uma orquestra no auge da sua carreira!” diz sorrindo e trazendo uma fotografia em preto e branco, amassada e amarelada pelo tempo. Estava autografada “pelo próprio Donato Raciatti”.

Senta para ouvir a música. Comentários se fazem sobre a fotografia, mas já não presta atenção ao ambiente. Olha fixamente para a tela onde agora passa um video de Piazzolla. Relaxa, recosta-se na cadeira de balanço. Emociona-se e chora.

A tarde é morna, como qualquer tarde de mais um verão setentrional. Mas não há mais essa agitação dos tempos antigos. Se há qualquer agitação, é outra. Não há mais aquela presteza de se arrumar para os bailes de clubes. Não há mais cunhados, sobrinhos e vizinhas, nem mais netos correndo e fazendo barulho. Ah, os netos, “já são todos homens-feitos”. A vida passou e se foi, agitada como um salão de baile que se enche de sentimentos e luz, mas se esvazia eventualmente. Fatalmente. “Quando me dei por conta, já estava velha”. Quando se deu por conta, o baile já se termina e é tarde. Tarde, hora de voltar para casa.

É tarde, e o morno da tarde abafa o silêncio para a casa antiga e densa de memórias. Quem passou pelos salões de baile cheios de luz e vida já não teme mais o vazio da vida. Triste é saber que, em verdade, vai temer quando ele chegar; Temo eu, por ela, que vá ela temer quando chegar.

Não há mais tribulações. Agora só há a paz. A angustia se transmuta em melancolia. A tristeza, em nostalgia e a dor, em paz e a tranquilidade é macia como o violino que vibra em seu peito cansado. Suspira de alegria.

“Rosa, teu irmão está com um auto novo? Achei que era dele. Outro dia mesmo ele estacionou aqui na frente e saiu de um auto novo e bonito.”

A face dos anos se impõe no silêncio da sala, e só uma nota de Bandoneón corta este silêncio e desafia a história plácida estampada nas paredes forradas de porta-retratos, copos-de-leite e bordados estrangeiros.

“Mas e a morte de Fulano, foi terrív… Ah, meu irmão adorava esse tango!” 

Fascino em ver a dor se transformar em alegria. Não posso evitar de me perguntar: Será mesmo dor? Será mesmo alegria?

Comove-se com um sorriso doce à face. De repente, surpreende a todos os presentes confessando: “Eu queria morrer ouvindo isso…”

Não teme mais a morte. A aguarda, e quando chegar, vai lhe cumprimentar como se fosse uma velha amiga. O mundo dela já teve muito. Deixe-a em paz, com seu passado brilhante e triste. Triste, mas feliz, como um tango romântico.

Se a tristeza anula a felicidade e o bem anula o mal, ela sai da vida com o merecido zero. A humildade do neutro, o zero transcendental. Uma alma que nasceu sem nada leva ao menos o tango em seu coração. O som doce do violino e o sentimento terno dos tempos de romance, degustados em mais um suspiro e um piscar-de-olhos lento. Pode-se ver seu coração vivo, morno como a tarde de dezembro. Desperta!

“Que é que tu tanto escreves guri?” Não quer acender a luz?”

“Não, não precisa. Nem sei o que escrevo. Escrevo o…”

“É coisa linda um piano bem tocado, n’oé verdade?”


Lobo do Prado, 2016

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