Das profundezas

Da profunda e escura caverna
dois olhos brilham na escuridão.
É o grande dragão que me espreita maligno
a mentir que é o meu destino.

Sou livre — ele diz,
Posso bem devorar-te!
Não temes que meu fogo,
meu bafejar incendiante,
te fira e te mate?

Ignoro. Adentro, porém, a caverna,
com medo dos olhos e das chamas,
das labaredas que me envolvem mortíferas.
Medo dos olhos vivos em brasa ígnea,
que descem acompanhando-me.
As asas negras se expandindo,
o pescoço longo se levantando,
a bocarra em tremor, pronta para engolir,
morder, rasgar, destruir.

Com medo adentro, fecho os meus olhos —
sei que preciso ir. A mão contra o peito
arfante, pulso em aceleração,
a cabeça vertiginosa em pavor.
O outro braço queimado,
ainda ardendo a cicatriz, a queimadura.
Com medo adentro, sei que preciso ir!

Grande monstro de espírito corrompido,
em voz ogra e profunda se dirige a mim,
os olhos brilhantes fixos abaixo,
contrai-se todo, as negras asas a abrir,
as crispadas garras,
as negras escamas
tremulando feroz.
Com tamanho bramido a me aturdir,
a fera decide falar:

— Se não te entregaste,
aqui vais render-te!
Por que é que sem vens te confrontar a mim?!

Em segredo eu, em pavor,
frente a tamanho poder,
inspiro fundo e ao monstro confesso:
tu és a fera mais temida,
dentre os dragões,
mais horrenda não vi.
O mais tenebroso tirano,
o mais cruel manifesto,
a pior calamidade que há.

Ouvindo a minha voz trêmula,
ele puxa o ar para cuspir o fogo,
certo seguirá a explosão de chamas mortais.
Já o fogo ao lhe escapar
a bocarra para em fogo me consumir,
a morte iminente a assombrar
meu coração dolorido.
Uma voz, porém, ecoa nas trevas profundas:
— Desperta!
ouço confuso,
— Desperta da escuridão!

Abro os olhos, abro os braços ao monstro,
miro-lhe os olhos de fogo.
Tal qual herói de outrora,
mas com estranha tranquilidade,
nem da espada tomo,
nem feitiço mortal profiro.
Apenas honesta lágrima cai,
e em exorcismo final confesso:

— Perdão, irmão devotado,
atende a este pedido honesto!
Grande em figura tu és, pequeno sou eu,
mas a caverna é uma só —
Nela preciso descer,
e nela tu me deves confrontar.
Perdoa-me pelo que fiz de ti,
do que te tornou grande dragão.

Ergo a mão ferida e queimada,
humilde e sereno confesso:
— Te perdoo também,
sabes bem me feriste.
Na vida nada mais temi
do que este encontro derradeiro,
porém hoje retorno em gratidão.
Grato pela cicatriz
que pela vida inteira levarei sabendo
que só o perdão poderá curar.
A ferida aqui um dia busquei — sem querer,
dói mais em ti que em mim, eu sei.
Por isso te rogo… perdão!

Dá-me tua mão,
vem andar comigo.
Vem sair da caverna,
nem que não seja a última vez,
nem que porventura um dia retornemos,
mas vem.

Vem, deita-te ao meu lado,
dormir comigo,
tocar a minha face,
deixar que eu acaricie a tua.
Já sem trevas, sem escuridão,
sem olhos de fogo
veja meus olhos negros em ti.
Permite-me a redenção
neste encontro que é a caverna,
deixa-me beijar o humano rosto
que tu tens,
a minha face
que a dor fez um dia,
que com fogo deformei a mim,
e sem querer te criei, dragão.