Hoje não fazia nada,
olhava os campos se perdendo no horizonte.
Distante de mim tudo aquilo, nada me fazia querer.
Aí então pensei comigo: quero descer. Descer as escadas,
visitar os porões, as criptas, depois as cavernas.
Tomei da minha mão e convidei a mim e
de mãos dadas nós dois nos pusemos a descer.
Sem medo. Sem vacilo.
Muitas vezes já fui lá — apesar de sem saber.
Na primeira cripta eu e mim encontramos
outro eu oprimido e apavorado,
tremendo contra a parede.
Com cautela e silenciosamente nos aproximamos e
com carinho tomei de minha mão.
Eu me acalmei e me olhando confuso,
nada disse, mas o abracei.
E no calor vivo daquele abraço eu disse:
Confia em ti, que eu confio também.
A mim, eu agradeci e sorriu,
Juntou-se comigo e a mim, e continuamos a descer.
No porão abaixo encontramos
um outro eu fulo de raiva.
Maldizendo a vida, xingando a nós
a si mesmo, a mim e a tudo que existe.
De longe olhei para ele e ergui a mão
para que me acalmasse.
Tranquilo já, me aproximei de mim outra vez,
dizendo: Irmão, tenha paciência!
O que vale mais na vida:
ser tranquilo,
ou ter razão?
Não respondi, mas me agradeceu.
Em silêncio fomos juntos todos,
descendo mais um pouco comigo.
Continuei, eu, a mim e mais os outros,
mais abaixo, lá no fundo,
na caverna mais escura,
mais fria e mais úmida.
Já antes de entrar escutei um choro baixinho
e tive pena de quem vi.
Aos meus outros disse:
Deixa que eu falo comigo aqui.
Lá estava uma criança, um menininho.
Ferido. Sozinho.
No chão abraçando as pernas, nem me ouviu.
Cheguei perto, sentei-me ao lado dele,
toquei-me no meu ombro e puxei-me para mim.
Toquei no meu rosto e parei de chorar.
Olhei no fundo dos meus olhos e lhe disse:
Sei porque choras, querido. Eu sei.
Sei porque dói, pois também dói em mim.
Mas calma, respira. Posso te prometer uma coisa?
E eu, pequenino, sequei minhas lágrimas
e parei para me ouvir.
E me disse:
Criança minha, eu te prometo,
nunca mais te abandonar.
Que nem o pai, nem a mãe precisarão socorrer.
Pois o que for preciso, vou te dar.
De meu coração e de todo intento,
por todo o futuro e com todo amor,
nunca mais te farei sofrer.
Toda alegria que puder dar
Será meu presente para ti e para mim.
Abraça-me e chora, estou aqui.
Não temas o caminho, te dou a mão!
Estarei comigo, sempre para ti,
mesmo que no colo, te carregue,
junto de nosso coração.
Quem sabe, vens comigo agora?
Vamos pra casa, vem?!
Vou, ele disse secando as lágrimas.
Comigo agora posso ir.
Felizes nos abraçamos,
eu, nós e todos para subir de volta.
De volta à luz, de volta à tona.
Da caverna ao porão, do porão à cripta,
tudo que encontrei eu retornou a mim.
No antepenúltimo degrau,
larguei a criança do colo,
sem jamais soltar-lhe a mão.
No penúltimo eu enfurecido
deixou tudo pra lá. Não importa mais.
No último eu todo com medo
respirei fundo e ele se permitiu.
No patamar enfim,
voltei-me todo a meu ser.
Lá fora então sol aqueceu meu rosto e
de novo bateu o vento.
A vida encheu meus pulmões e
completo de algo que faltava, me senti.
Suspirei com esperança e pensei:
Para quê só olhar agora, então?
Olhei o horizonte e afinal parti.
Para onde? Não sei.
Só sei que levei a mim.
Lá fora o sol aqueceu meu rosto
e de novo bateu o vento.
A vida me encheu os pulmões
e me senti estranhamente completo.
Mirei o horizonte e afinal
senti como se me chamasse.
E eu, como se o ouvisse
sem nem bagagem parti.
Para onde? Não sei.
Só sei que levei a mim.