Num momento ao puxar a água,
na tarefa indigna de tirar o balde do poço,
nesta cabana miserável, numa campina assim isolada,
acomete-me uma rebeldia! Por que aqui continuar?
Larguei balde e água poço abaixo. Vou sair mundo afora,
sem rumo sem destino, somente a perguntar.
Calcei as botas, vesti a capa. Tomei do cajado e me fui.
Fui com tudo isso e mais nada.
Na floresta me perdi e às árvores indaguei:
— Quem sois vós no mundo, ó árvores,
que só germinam, crescem e florescem?
Não me responderam palavra.
Triste mencionei sair,
mas o farfalhar do vento nas folhas,
a clara resposta me trouxe:
— Estas são as que germinam, crescem e florescem.
Germinam, crescem florescem e mais nada.
Pouco satisfeito fui ao sopé da serra
e gritando interroguei: Ó montanha!
Tu que te ergues imponente, sobre tudo e todos se eleva.
— Quem és tu? Quem és tu na grande terra?
Novamente, nenhuma resposta, por mais que eu esperasse.
Foi num resvalo que fizeram rolar pedregulhos me contando:
— Nada de especial tem esta. Esta apenas é aquela
que se ergue imponente e sobre todos se eleva.
Se ergue e se eleva e mais nada.
Menos ainda a entender, eu quis subir.
Escalei a montanha e, no cume, exausto, bradei ao infinito:
— Quem és tu, ó céu, que se estende sobre o mundo,
de dia conduzindo as nuvens alvas
e de noite abarcando as estrelas?
Nem este me respondeu, distante.
Apenas um trovão de súbito
que em longíquo eco me contou:
— Este é aquele que apenas se estende pelo mundo,
de dia conduz as nuvens alvas
e de noite abarca o as estrelas.
Tudo isso ele faz, mais nada.
Mais confuso que nunca, desci da montanha ao vale
e me deparei com o rio que corre.
A este inquiri também, quase sem esperança:
— Quem és tu, ó rio corrente, que cortas vales e vilarejos?
Não me digas tu também, que é só o que fazes e mais nada.
Resposta nenhuma consegui.
Sentei às pedras.
Fechei os olhos.
Desisti.
Ouvi o bramido distante da cachoeira
que confirmou, serena, para minha decepção:
— Este é aquele que corre, corta os vales e vilarejos.
Mas que só faz isso. Só faz isso e mais nada.
Pus-me a voltar, decepcionado.
Voltei à montanha, contemplei o céu,
desci à floresta e passei pelas árvores.
Cheguei à campina. À pobre cabana.
Tirei a capa, tirei as botas.
Larguei o cajado e voltei para casa.
Tomei do balde para continuar
a insossa rotina do camponês a trabalhar.
Mas antes de lançar o balde, ainda segurando a corda,
estranho sentimento me ocorreu.
No fundo do poço, na água límpida
vi meu próprio rosto.
E naqueles olhos do reflexo,
mirei os meus e me veio outra dúvida,
mas a esta dúvida, no entanto, nem foi necessário questionar.
Dos olhos que eu via a resposta simplesmente veio:
— Este é aquele que vive. Vive a perguntar.
~ Lobo do Prado, junho de 2026