A Pedra

Ontem sonhei que eu era a pedra
que não vivia nem morria,
que não era quase nada na natureza,
mas que era o suficiente para mim.
Sem que precisasse ter nada,
nem fome nem sede, nem medo.
Sem que sofresse a dor do mundo.
Sonhei que apenas era a pedra.

Não temia que o tempo passasse,
nem que crescesse a floresta ao meu redor,
nem que o bosque espalhasse em vida.
Nem mesmo que os maus lenhadores,
porventura viessem e o devastassem.

Ali deitada permanecia,
vivendo e desexistindo.
Pouco a pouco a corroer.
Sendo e não sendo em desfazimento,
em torpor de sono, mas com alegria.

Ontem sonhei que eu era a pedra
e que o tempo comigo nem se importava,
porque o tempo é como a pedra:
existe para si para que o mundo passe,
mas que para o mundo nem exista.

A vida da pedra é ficar ali
para que nela um dia se sente o cansado viajante,
ou mesmo tropece o andarilho desatento,
ou que a levem para um castelo ser o bastião,
ou mesmo para um canto da muralha,
que cairá, como tudo cai um dia.

E cada um que passasse por mim,
tirasse uma lasquinha, uma nicada —
um construtor, um escultor —
quem quer que de mim precisasse
perdendo, para que lhe servisse.
E cada partícula assim perdida
fosse um pouco menos da minha vida,
para que de peça em peça
burilando me desconstruísse.

E quando me acabasse em desfazimento
que eu morresse em paz no momento final.
Não essa morte do homem, que lhe tira tudo que ele tem,
mas a morte da pedra que lhe devolve o que nunca teve.
Pois há homens que temem muito a morte,
mas a pedra não… não a pedra.
Da morte a pedra zombaria!

Ontem sonhei que eu era a pedra
e sonhei que trouxe a morte para dançar com a vida.
Eu não vivia dias: contava eras,
(quase) indestrutível, eu ria
de quem conta anos adiante, apenas dizendo:
dos meus que sobram, eu conto um para trás.
Um dia a menos todo dia.

Desgastando sempre, contemplando a vida —
a vida alheia, ou a vida minha.
Quero ser a finitude da pedra
que se decompõe mas persiste,
sem perder de vista o derradeiro fim.
Pedra tal que perde tempo adormecida,
mas dormindo, sonha, e sonhando é.
E apenas é e se torna em sonho
aquilo que acordada jamais seria.

Ontem sonhei que eu era a pedra,
sumindo um pouco todo dia,
escavada pelo vento, sumida
uma partícula, um grão de poeira.
Perdendo sempre do que era eu,
Feliz que as afiadas arestas
rolando abaixo pelo rio
me tornassem lisa e polida,
sem deixar de ser pedra, pedra ainda.

Por isso, no dia em que eu morrer,
Em vez de morte, em pétreo fim,
quero estar completamente vazio
entregando o último vestígio de mim.

Lobo do Prado, abril de 2026